Fábrica de angústias: a masculinidade de Carlos no filme São Paulo Sociedade Anônima

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2026-06-26

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Resumo

Neste trabalho, identifico e analiso os discursos sobre a masculinidade representados pelo personagem Carlos, no filme São Paulo Sociedade Anônima (1965), de Luiz Sérgio Person. Proponho trazer um vocabulário que nos permita historicizar este sujeito. Assim, a construção da subjetividade de Carlos é compreendida por meio das relações que ele estabelece com o trabalho, a família e o contexto social, político e econômico. Além disso, a reflexão se guia pelos marcadores de gênero, raça e classe. Através desta leitura, pode-se identificar Carlos como um homem branco, heteronormativo, latinoamericano e da classe média urbana. A análise de Carlos é feita também pelos seus encontros com as demais personagens. Isso coloca em cena e fora dela os lugares sociais reservados a estes sujeitos. A trama se passa na virada dos anos 1960 e é atravessada pelo "boom" da industrialização e pelo golpe cívico-militar brasileiro. Vivendo em meio às transformações “modernizantes” da nascente indústria paulistana, argumento que a masculinidade de Carlos é construída socialmente. Ela responde a um contexto que reproduz a influência do assim chamado “modo de vida americano”, do pensamento neoliberal estadunidense e fundamentalmente da figura do "homem moderno". Responde também a um conflito geracional e de gênero, característico dos anos 1960 no Brasil e em outros países. Entre os eixos de análise estão o uso da linguagem cinematográfica como uma tecnologia pela qual se reproduzem e se criam representações de gênero e também o seu uso como fonte historiográfica; uma abordagem crítica do conceito de "modernidade" e das particularidades que ele toma no sul global, neste caso, no Brasil. A América Latina vivenciou a chegada, sempre truculenta, dos discursos atrelados à influência estadunidense sob o contexto da guerra fria. Assim, cada região produz uma experiência que ressignifica o encontro da influência externa com as vivências locais. No caso do Brasil, especialmente em São Paulo, isso se dá em vários aspectos. Entre eles, uma tentativa de adesão ao “modo de vida americano”. No contexto estadunidense do pós-guerra, os papéis de gênero são alvos dos dispositivos do Estado. A manutenção da família nuclear heteronormativa se impõe. No Brasil, isso ganha eco e produz ainda a continuidade do projeto de embranquecimento da sociedade, agora no meio industrial, no êxodo rural e na relação periferia/centro. Em meio a este cenário, ao tentar “ser um homem”, Carlos não consegue juntar as peças que lhe foram entregues – ou produzidas por ele. Se vê diversas vezes em fugas e colapsos emocionais agressivos, acompanhados pela obsessão de “recomeçar” sua vida. Entre as principais conclusões deste trabalho destaco que pela maneira que se constrói, esta masculinidade representada por Carlos é acompanhada de sofrimento, tensões e contradições sobre seu lugar e seu papel. Junto a isso, as particularidades da modernidade paulista dos 1960 são o cenário desta construção. A exploração capitalista e as transformações dos papeis de gênero contextualizam a produção desta masculinidade. Resumen En este trabajo, identifico y analizo los discursos sobre la masculinidad representados por el personaje de Carlos en la película São Paulo Sociedade Anônima (1965), de Luiz Sérgio Person. Propongo utilizar un vocabulario que permita historizar este tema. Así, la construcción de la subjetividad de Carlos se comprende a través de las relaciones que establece con el trabajo, la familia y el contexto social, político y económico. Además, la reflexión se guía por marcadores de género, raza y clase. Mediante esta lectura, se puede identificar a Carlos como un hombre blanco, heteronormativo, latinoamericano, perteneciente a la clase media urbana. El análisis de Carlos también se realiza a través de sus encuentros con los demás personajes. Esto introduce y expone en la película los espacios sociales reservados para estos sujetos. La trama se desarrolla a principios de la década de 1960 y está marcada por el auge de la industrialización y el golpe cívico-militar brasileño. Viviendo en medio de las transformaciones "modernizadoras" de la naciente industria de São Paulo, sostengo que la masculinidad de Carlos es una construcción social. Este trabajo responde a un contexto que reproduce la influencia del llamado "estilo de vida americano", del pensamiento neoliberal estadounidense y, fundamentalmente, de la figura del "hombre moderno". También responde a un conflicto generacional y de género, característico de la década de 1960 en Brasil y otros países. Entre los ejes de análisis se encuentran el uso del lenguaje cinematográfico como tecnología a través de la cual se reproducen y crean representaciones de género, y también su uso como fuente historiográfica; un enfoque crítico del concepto de "modernidad" y las particularidades que adquiere en el Sur Global, en este caso, Brasil. Latinoamérica experimentó la llegada, siempre truculenta, de discursos vinculados a la influencia estadounidense en el contexto de la Guerra Fría. Así, cada región produce una experiencia que resignifica el encuentro entre la influencia externa y las experiencias locales. En el caso de Brasil, especialmente en São Paulo, esto ocurre en varios aspectos. Entre ellas, un intento de adherirse al "estilo de vida americano". En el contexto estadounidense de la posguerra, los roles de género son blanco de los aparatos estatales. Prevalece el mantenimiento de la familia nuclear heteronormativa. En Brasil, esto resuena y perpetúa el proyecto de blanqueamiento de la sociedad, ahora dentro del sector industrial, el éxodo rural y la relación periferia/centro. En medio de este escenario, al intentar "ser un hombre", Carlos lucha por reconstruir los elementos que le han sido dados, o que él mismo ha producido. Experimenta frecuentemente fugas y crisis emocionales agresivas, acompañadas de una obsesión por "empezar de nuevo" su vida. Entre las principales conclusiones de este trabajo, destaco que, debido a la forma en que se construye, esta masculinidad representada por Carlos está acompañada de sufrimiento, tensiones y contradicciones sobre su lugar y rol. Además, las particularidades de la modernidad de São Paulo en la década de 1960 proporcionan el telón de fondo para esta construcción. La explotación capitalista y las transformaciones de los roles de género contextualizan la producción de esta masculinidad.

Abstract

In this work, I identify and analyze the discourses on masculinity represented by the character Carlos in the film São Paulo Sociedade Anônima (1965), by Luiz Sérgio Person. I propose to use a vocabulary that allows us to historicize this subject. Thus, the construction of Carlos's subjectivity is understood through the relationships he establishes with work, family, and the social, political, and economic context. Furthermore, the reflection is guided by markers of gender, race, and class. Through this reading, Carlos can be identified as a white, heteronormative, Latin American man from the urban middle class. The analysis of Carlos is also done through his encounters with the other characters. This brings into and out of the film the social places reserved for these subjects. The plot takes place at the turn of the 1960s and is traversed by the "boom" of industrialization and the Brazilian civic-military coup. Living amidst the "modernizing" transformations of the nascent São Paulo industry, I argue that Carlos's masculinity is socially constructed. This work responds to a context that reproduces the influence of the so-called "American way of life," of American neoliberal thought, and fundamentally of the figure of the "modern man." It also responds to a generational and gender conflict, characteristic of the 1960s in Brazil and other countries. Among the axes of analysis are the use of cinematic language as a technology through which gender representations are reproduced and created, and also its use as a historiographical source; a critical approach to the concept of "modernity" and the particularities it takes on in the Global South, in this case, Brazil. Latin America experienced the always truculent arrival of discourses linked to American influence within the context of the Cold War. Thus, each region produces an experience that re-signifies the encounter between external influence and local experiences. In the case of Brazil, especially in São Paulo, this occurs in several aspects. Among them, an attempt to adhere to the "American way of life." In the post-war American context, gender roles are targets of state apparatuses. The maintenance of the heteronormative nuclear family prevails. In Brazil, this resonates and perpetuates the project of whitening society, now within the industrial sector, rural exodus, and the periphery/center relationship. Amidst this scenario, in attempting to "be a man," Carlos struggles to piece together the elements he has been given—or that he has produced himself. He frequently experiences escapes and aggressive emotional breakdowns, accompanied by an obsession with "starting over" his life. Among the main conclusions of this work, I highlight that, due to the way it is constructed, this masculinity represented by Carlos is accompanied by suffering, tensions, and contradictions about his place and role. Furthermore, the particularities of São Paulo's modernity in the 1960s provide the backdrop for this construction. Capitalist exploitation and the transformations of gender roles contextualize the production of this masculinity.

Descrição

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em História.

Palavras-chave

masculinidade, gênero, São Paulo (SP), modernidade

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