Entre mundos e fronteiras: uma autoetnografia a partir de o silêncio do Albatroz
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Data
2026-08-24
Autores
Sleiman, Zion Mohamad
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Resumo
Esta dissertação apresenta uma análise autoetnográfica da experiência de um homem trans árabe que vivenciou deslocamentos físicos, simbólicos e identitários entre o Brasil e o Líbano, particularmente entre a cidade de Foz do Iguaçu (PR), na tríplice fronteira sul-americana, e diferentes territórios libaneses, como Aayteet (sul do Líbano), Beirute e Sur (Tiro). Parte-se do entendimento de que tais deslocamentos não se limitam ao plano geográfico, sendo atravessados por fronteiras culturais, religiosas, linguísticas, racializadas e de gênero que incidem na constituição da subjetividade, do corpo e das formas de pertencimento. O objetivo da pesquisa é analisar como essas múltiplas fronteiras influenciam processos de negociação identitária, resistência, perda e reinvenção ao longo da trajetória do autor, incluindo as rupturas territoriais e comunitárias associadas à transição de gênero. O principal corpus empírico consiste no diário pessoal O Silêncio do Albatroz, produzido desde a infância como prática de elaboração emocional e posteriormente como estratégia de sobrevivência psíquica e narrativa. O diário reúne memórias, fragmentos escritos, imagens e registros autobiográficos mobilizados nesta pesquisa como fonte documental e como dispositivo metodológico. A investigação fundamenta-se na autoetnografia crítica, inspirada nos trabalhos de Carolyn Ellis e Arthur P. Bochner, articulada a debates sobre fronteira e mestiçagem cultural em Gloria Anzaldúa, orientalismo em Edward Said, colonialidade de gênero em Maria Lugones e estudos sobre transgeneridade desenvolvidos por Berenice Bento. Os resultados evidenciam que processos de racialização de corpos árabes na América Latina produzem experiências de alteridade, suspeição e islamofobia, ao mesmo tempo em que revelam tensões entre religião e transgeneridade em contextos árabe-islâmicos. Contudo, tais experiências também evidenciam possibilidades de resistência, reinterpretação religiosa e reconstrução identitária. Conclui-se que a experiência de corpos trans árabes constitui uma forma situada de produção de conhecimento sobre fronteira, exílio, fé e pertencimento. Ao inscrever a experiência autobiográfica no campo acadêmico, a pesquisa contribui para ampliar o debate sobre transgeneridade em contextos árabe-islâmicos na América Latina e para tensionar narrativas hegemônicas sobre identidade, religião e diáspora.
Resumen
Esta tesis presenta un análisis autoetnográfico de la experiencia de un hombre trans árabe que ha vivido desplazamientos físicos, simbólicos e identitarios entre Brasil y el Líbano, particularmente entre la ciudad de Foz do Iguaçu (PR), ubicada en la triple frontera sudamericana, y distintos territorios libaneses como Aayteet (sur del Líbano), Beirut y Sur (Tiro). Se parte de la comprensión de que dichos desplazamientos no se limitan al plano geográfico, sino que están atravesados por fronteras culturales, religiosas, lingüísticas, racializadas y de género que inciden en la constitución de la subjetividad, del cuerpo y de las formas de pertenencia. El objetivo de la investigación es analizar cómo estas múltiples fronteras influyen en los procesos de negociación identitaria, resistencia, pérdida y reinvención a lo largo de la trayectoria del autor, incluyendo las rupturas territoriales y comunitarias asociadas a la transición de género. El principal corpus empírico consiste en el diario personal El Silencio del Albatros, producido desde la infancia como práctica de elaboración emocional y posteriormente como estrategia de supervivencia psíquica y narrativa. El diario reúne memorias, fragmentos escritos, imágenes y registros autobiográficos movilizados en esta investigación tanto como fuente documental como dispositivo metodológico. La investigación se fundamenta en la autoetnografía crítica, inspirada en los trabajos de Carolyn Ellis y Arthur P. Bochner, articulada con los debates sobre frontera y mestizaje cultural en Gloria Anzaldúa, el orientalismo en Edward Said, la colonialidad de género en Maria Lugones y los estudios sobre transgeneridad desarrollados por Berenice Bento. Los resultados evidencian que los procesos de racialización de los cuerpos árabes en América Latina producen experiencias de alteridad, sospecha e islamofobia, al mismo tiempo que revelan tensiones entre religión y transgeneridad en contextos árabe-islámicos. No obstante, estas experiencias también muestran posibilidades de resistencia, reinterpretación religiosa y reconstrucción identitaria. Se concluye que la experiencia de los cuerpos trans árabes constituye una forma situada de producción de conocimiento sobre frontera, exilio, fe y pertenencia. Al inscribir la experiencia autobiográfica en el campo académico, la investigación contribuye a ampliar el debate sobre transgeneridad en contextos árabe-islámicos en América Latina y a cuestionar las narrativas hegemónicas sobre identidad, religión y diáspora.
Abstract
This dissertation presents an autoethnographic analysis of the experience of an Arab trans man who has undergone physical, symbolic, and identity-based displacements between Brazil and Lebanon, particularly between the city of Foz do Iguaçu (PR), located in the South American tri-border region, and different Lebanese territories such as Aayteet (South Lebanon), Beirut, and Sur (Tyre). The study is based on the understanding that these displacements are not limited to geographical movement but are crossed by cultural, religious, linguistic, racialized, and gendered boundaries that shape subjectivity, embodiment, and forms of belonging. The objective of this research is to analyze how these multiple borders influence processes of identity negotiation, resistance, loss, and reinvention throughout the author's life trajectory, including territorial and communal ruptures associated with gender transition. The main empirical corpus consists of the personal diary The Silence of the Albatross, produced since childhood as a practice of emotional elaboration and later as a strategy of psychological and narrative survival. The diary gathers memories, written fragments, images, and autobiographical records mobilized in this research both as documentary material and as a methodological device. The investigation is grounded in critical autoethnography, inspired by the work of Carolyn Ellis and Arthur P. Bochner, and engages with debates on borderlands and cultural hybridity in Gloria Anzaldúa, Orientalism in Edward Said, coloniality of gender in Maria Lugones, and studies on transgender identities developed by Berenice Bento. The results indicate that processes of racialization affecting Arab bodies in Latin America produce experiences of alterity, suspicion, and Islamophobia, while also revealing tensions between religion and transgender identities in Arab-Islamic contexts. At the same time, these experiences highlight possibilities of resistance, religious reinterpretation, and identity reconstruction. The study concludes that the experience of Arab trans bodies constitutes a situated form of knowledge production about borders, exile, faith, and belonging. By inscribing autobiographical experience within the academic field, this research contributes to expanding debates on transgender identities in Arab-Islamic contexts in Latin America and challenges hegemonic narratives about identity, religion, and diaspora.
Descrição
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos Latino-Americanos da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Estudos Latino-Americanos.
Palavras-chave
etnografia, exílio, pessoas transgênero, Líbano