A síndrome do deslocamento referencial e a conservação da ariranha pteronura brasiliensis zimmerman, 1780 (mustelidae): um estudo de caso da relação entre preservação da memória coletiva e conservação da biodiversidade

dc.contributor.authorPinto, Nathalia Brunetto
dc.date.accessioned2026-02-20T17:29:48Z
dc.date.available2026-02-20T17:29:48Z
dc.date.issued2026-02-20
dc.descriptionTrabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto Latino-Americano de Ciências da Vida e Natureza da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Ciências Biológicas – Ecologia e Biodiversidade.
dc.description.abstractA degradação ambiental é uma das mais urgentes questões com as quais a humanidade se encontra obrigada a lidar na contemporaneidade. A perda de biodiversidade é um dos processos mais importantes envolvidos na degradação do meio ambiente, mas também é um dos que chamam menos atenção da sociedade de maneira geral. Essa falta de atenção acompanha um aumento progressivo de tolerância às alterações nas condições naturais do ambiente, que vem sendo estudado enquanto um fenômeno sócio-psicológico no âmbito da biologia da conservação, ao qual se deu o nome de Shifting Baseline Syndrome - Síndrome do Deslocamento Referencial. Esse fenômeno se dá quando as condições atuais de um ambiente degradado são aceitas como normais, sendo ignoradas as alterações que ocorreram no passado, o que pode ser entendido como uma amnésia coletiva sobre o ambiente natural. A ocorrência desse fenômeno parece estar sendo evidenciada pela reação de algumas comunidades ao retorno de espécies que há muito tempo haviam sido extintas localmente, como é o caso da ariranha Pteronura brasiliensis. No século passado, animais de grande porte como a ariranha foram caçados quase até a extinção para o mercado internacional de peles, tendo restado somente algumas populações em áreas de refúgio. Décadas após a implementação de políticas de cessamento da caça comercial, algumas áreas da ocorrência histórica da espécie começaram a ser recolonizadas pelas populações remanescentes, onde agora elas enfrentam uma nova ameaça: a ocorrência de conflitos com humanos da nova geração residente nesses territórios, motivados por uma percepção errônea a respeito do animal, permeada por estigmas e desinformação sobre seu comportamento e papel ecológico. Este trabalho buscou analisar, através de artigos que documentam o retorno da espécie e a reação das comunidades, casos de interações entre humanos e ariranhas nesses locais para tentar entender se a síndrome do deslocamento referencial está por trás dos conflitos. Foram encontrados registros de interações no rio Içana, no lago Amanã, no rio Juruá, no rio Yanayacu, nos rios Javari e Javari-Mirim e no rio Manu. Ao analisar as situações documentadas, percebe-se que as ariranhas são muitas vezes associadas à redução nos estoques pesqueiros, quando na verdade as evidências científicas apontam a espécie como chave na regulação dos ecossistemas aquáticos – o que parece ser um indicativo da amnésia coletiva sobre a coexistência de abundantes populações de ariranhas com populações saudáveis de peixes no passado. O único território onde não houve registro de interações negativas após o retorno da espécie foi no rio Içana, onde reside o povo Baniwa, para o qual a ariranha representa uma importante figura na mitologia, associada à saúde das populações de peixes. Nessa comunidade, a memória sobre a presença da ariranha no passado e seu importante papel ecológico parece ter sido preservada entre as gerações através da cultura, o que provavelmente evitou o deslocamento da referência do estado natural do ambiente para esses habitantes. Resumen La degradación ambiental es uno de los problemas más urgentes de la época contemporánea. Aunque la pérdida de biodiversidad es uno de los procesos más importantes en términos de degradación del medio ambiente, es también uno de los que menos llaman la atención de la sociedad. Esta indiferencia va acompañada de un aumento progresivo de la tolerancia a las alteraciones del entorno, un fenómeno socio-psicológico que ha sido estudiado en el ámbito de la biología de la conservación bajo el nombre de Shifting Baseline Syndrome (Síndrome del Desplazamiento Referencial). La idea central del fenómeno pasa por la aceptación de las condiciones actuales de un entorno degradado como si fueran normales. Se tiene, así, un escenario de ignorancia en cuanto a las alteraciones que ocurrieron en el pasado, una forma de amnesia colectiva en relación con el medio ambiente natural. El fenómeno parece estar involucrado en la manera en que algunas comunidades están reaccionando al retorno de especies que habían sido extinguidas localmente, como es el caso de la nutria gigante (Pteronura brasiliensis). Algunos animales de gran tamaño, como la nutria gigante, fueron cazados casi hasta la extinción para abastecer el mercado internacional de pieles, por lo que algunas poblaciones permanecieron en áreas de refugio. Décadas después de la implementación de políticas de control de la caza comercial, algunas áreas de la ocurrencia histórica de la especie comenzaron a ser recolonizadas por las poblaciones remanentes. Sin embargo, tales poblaciones enfrentan una nueva amenaza: la ocurrencia de conflictos con humanos de esos territorios que no conocieron el escenario original en el que la especie ocurría allí. De esta forma, el presente trabajo buscó analizar, a través de artículos que documentan el retorno de la especie y la reacción de las comunidades, casos de interacciones entre humanos y nutrias gigantes en esos lugares de recuperación de poblaciones. Buscamos, así, intentar entender si el síndrome del desplazamiento referencial puede explicar tales conflictos. Se percibe que las nutrias gigantes son a menudo asociadas a la reducción en las reservas pesqueras, cuando en realidad la evidencia científica las señala como una especie clave en la regulación de los ecosistemas acuáticos. Parece, entonces, haber un indicio de la ocurrencia de una amnesia colectiva sobre la coexistencia de poblaciones de nutrias gigantes y de peces en el pasado. El único territorio donde no hubo registro de interacciones negativas después del retorno de la especie fue entre el pueblo Baniwa, habitantes de las márgenes del Río Içana, para quienes la nutria gigante representa una figura importante en la mitología, asociada a la salud de las poblaciones de peces. En esta comunidad, la memoria sobre la presencia de la nutria gigante en el pasado y su importante papel ecológico parece haber sido preservada entre las generaciones, lo que probablemente evitó el desplazamiento de la referencia del estado natural del ambiente para estas personas.
dc.identifier.urihttps://dspace.unila.edu.br/handle/123456789/9694
dc.rightsopenAccess
dc.subjectdefaunação
dc.subjectcaça
dc.subjectestoques pesqueiros
dc.subjectamnésia
dc.titleA síndrome do deslocamento referencial e a conservação da ariranha pteronura brasiliensis zimmerman, 1780 (mustelidae): um estudo de caso da relação entre preservação da memória coletiva e conservação da biodiversidade
dcterms.abstractEnvironmental degradation is one of the most pressing issues of contemporary times. Although biodiversity loss is one of the most important processes in terms of environmental degradation, it is also one that attracts the least attention from society. This indifference is accompanied by a progressive increase in tolerance to environmental changes, a socio-psychological phenomenon that has been studied within conservation biology under the name of Shifting Baseline Syndrome. The central idea of the phenomenon involves the acceptance of the current conditions of a degraded environment as if they were normal. Thus, there is a scenario of ignorance regarding the alterations that occurred in the past, a form of collective amnesia concerning the natural environment. The phenomenon appears to be involved in the way some communities are reacting to the return of species that had been locally extinct, such as the Giant River Otter (Pteronura brasiliensis). Some large animals, like the Giant River Otter, were hunted almost to extinction to supply the international fur market, resulting in some populations remaining in refuge areas. Decades after the implementation of commercial hunting control policies, some areas of the species' historical occurrence began to be recolonized by the remaining populations. However, these populations face a new threat: the occurrence of conflicts with humans in these territories who were unaware of the original scenario where the species occurred there. Therefore, the present study sought to analyze, through articles documenting the species' return and the communities' reaction, cases of interactions between humans and Giant River Otters in these population recovery sites. We thus sought to understand whether the Shifting Baseline Syndrome can explain such conflicts. It is perceived that Giant River Otters are often associated with the reduction in fish stocks, when in reality scientific evidence points to them as a keystone species in the regulation of aquatic ecosystems. There seems, then, to be an indication of the occurrence of collective amnesia about the coexistence of otter and fish populations in the past. The only territory where no negative interactions were recorded after the species' return was among the Baniwa people, inhabitants of the margins of the Içana River, for whom the otter represents an important figure in mythology, associated with the health of fish populations. In this community, the memory of the otter's past presence and its important ecological role appears to have been preserved across generations, which likely prevented the displacement of the baseline reference of the environment's natural state for these people.

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