ORALITURA, DIÁSPORAS AFRICANAS E ESPIRITUALIDADES SUBALTERNIZADAS: O MITO SAGRADO DE ORUNGÃ RECONTADO POR JORGE AMADO EM MAR MORTO (1936)
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2026
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Resumo
Na aurora do século XXI, a devoção aos Orixás – divindades cultuadas em tradições de matriz africana ou, mais especificamente, pertencentes à cultura iorubá – mobiliza séquitos fiéis em todos os continentes. A presente dissertação investiga, por meio da oralitura, as formas pelas quais esse sistema religioso, nascido entre os iorubás na África Ocidental, transforma-se num fenômeno espiritual global que se adapta localmente, marcando profundamente a experiência sagrada contemporânea. Das terras ancestrais na África até as diásporas nas Américas, passando por comunidades na Europa, Ásia e Oceania, o culto aos Orixás revela-se como uma das expressões religiosas mais dinâmicas e mais culturalmente fecundas da atualidade. O presente estudo busca prospectar distintas variantes de narrativas acústicas em torno do mito de Orungã, filho e consorte de Iemanjá, no tangente a eventuais constrições ideológicas de enredo e contextualizações de vezo cultural, especialmente no que se refere ao processo de subalternização de espiritualidades no âmbito das diásporas africanas e da colonialidade dos imaginários. Para tanto, partimos de uma ampla revisão bibliográfica sobre o fenômeno da oralitura, em sua articulação com a manifestação e a difusão de espiritualidades em escala transcontinental ou, com mais precisão terminológica, em espessura ecumênica, ou seja, no largo diapasão do espaço-tempo sobre a ecúmena terrestre, para tão logo chegarmos ao estudo da oralitura sagrada na esfera das espiritualidades latino-americanas sincréticas, de matriz africana e autóctone, sobretudo no plano de sua interseção conflitiva, sob o olhar vigilante e a intervenção sistêmica dos agentes e mantenedores da colonização europeia no continente. Com base nesse arcabouço teórico e contextual, passaremos à interpretação do mito ancestral de Orungã, cuja variante consagrada na cultura ocidental corresponde, no marco poético da oralitura grega clássica, à figura de Édipo, personagem mitológico de narrativas acústicas transposto para a obra escrita de autores como Homero e Sófocles, logo seguidos de Sêneca e uma miríade de passadores de palavras, muambeiros transfronteiriços de poéticas e oralituras ancestrais. Por fim, tratamos da releitura transcultural desse mito iorubá plurissecular pelas mãos de Jorge Amado (1912-2001), em Mar Morto (1936), na confluência conflitiva entre candomblé, umbanda, dogmas judeu-cristãos, intolerância religiosa e identidades afro-diaspóricas. Esse romance foi publicado poucos anos após a fundação da Umbanda, religião sincrética de devoção a orixás, ocorrida na cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, por obra de Zélio Fernandino de Moraes (1891-1975). Para sua análise, partimos da hipótese de que esse romance se constrói como um tratado metapoético ficcionalizado sobre a oralitura, no contexto das diásporas africanas e da cultura brasileira. Metodologicamente, optamos por adotar, neste estudo, o conceito de hermenêutica, segundo o filólogo alemão Friedrich Schleiermacher, compreendida como o exercício interpretativo voltado à construção de sentidos a partir do diálogo entre texto, contexto e tradição. Assim, a hermenêutica é aqui empregada como instrumento epistemológico que possibilita compreender as camadas simbólicas, espirituais e culturais que atravessam a obra de Jorge Amado e o mito de Orungã, valorizando o entrelaçamento entre literatura, espiritualidade e ancestralidade africana.
Abstract
Descrição
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Comparada da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, como requisito à obtenção do título de Mestre em Literatura Comparada.
Palavras-chave
Orungã. Oralitura. Espiritualidades Subalternizadas. Narrativas Sagradas. Transculturação.