Avaliação toxicológica não-clínica in silico e in vivo da bebida ayahuasca
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Data
2026-03-25
Autores
Vega Rodriguez, Cinttia Darleni
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Resumo
Apesar de já existirem diversas pesquisas voltadas à compreensão da ação da ayahuasca em organismos complexos, ainda são escassos os estudos conduzidos em modelos experimentais devidamente estabelecidos. Há uma necessidade evidente de avaliar de forma rigorosa a segurança dessa substância, sobretudo considerando seu crescente interesse em contextos clínicos e terapêuticos. Nesse sentido, o presente trabalho apresenta uma análise toxicológica da bebida ancestral ayahuasca, de origem indígena, composta principalmente pelo cipó Banisteriopsis caapi e pelas folhas de Psychotria viridis. Dessa bebida, o cipó Banisteriopsis caapi contém os alcaloides β-carbolínicos — harmina (HMN), harmalina (HRL) e tetrahidroharmina (THH) — que atuam como inibidores reversíveis da monoamina oxidase (iMAO), enquanto as folhas de Psychotria viridis são fonte do principal componente psicoativo, a N,N-dimetiltriptamina (DMT). O estudo avaliou o perfil toxicológico por meio de análises in silico utilizando a ferramenta Protox 3.0, e de um ensaio in vivo de toxicidade aguda em camundongos machos BALB/c, seguindo as diretrizes da OECD 423, com adaptações. As predições computacionais indicaram que o DMT apresenta uma dose letal mediana (DL50) estimada em 225 mg/kg e capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, o que corrobora com seus efeitos psicoativos. As β-carbolinas apresentaram DL50 de aproximadamente de 500 mg/kg para HMN, 550 mg/kg para HRL e 355 mg/kg para THH, classificando-se na categoria 4 de toxicidade. Além disso, foi observada alta probabilidade de imunotoxicidade e potencial de interação com enzimas hepáticas da família CYP450. No ensaio toxicológico in vivo, não foram registradas mortes associadas à dose de 64,7 mg/kg (1,94 mg do extrato bruto aquoso). Também não foram identificadas diferenças significativas no consumo de água, ração ou no ganho ponderal entre os grupos experimentais. Na avaliação macroscópica dos órgãos, observou-se diferença estatisticamente significativa apenas no baço, onde o grupo tratado apresentou esplenomegalia. O fígado apresentou aumento de tamanho, embora sem significância estatística, e os demais órgãos permaneceram sem alterações aparentes. De um modo geral, os resultados obtidos revelaram segurança no uso da bebida ayahuasca. Contudo, reforçam a necessidade de realizar estudos complementares, incluindo análises histopatológicas, bioquímicas, e estudos a longo prazo, para ampliar o conhecimento sobre a segurança da ayahuasca, bem como seu potencial terapêutico no tratamento de doenças refratárias.
Resumen
A pesar de que ya existen numerosas investigaciones orientadas a la comprensión de la acción de la ayahuasca en organismos complejos, aún son escasos los estudios realizados en modelos experimentales debidamente establecidos. Existe una necesidad evidente de evaluar de manera rigurosa la seguridad de esta sustancia, especialmente considerando su creciente interés en contextos clínicos y terapéuticos. En este sentido, el presente trabajo presenta un análisis toxicológico de la bebida ancestral ayahuasca, de origen indígena, compuesta principalmente por la liana Banisteriopsis caapi y por las hojas de Psychotria viridis. De esta bebida, la liana Banisteriopsis caapi contiene los alcaloides β-carbolínicos — harmina (HMN), harmalina (HRL) y tetrahidroharmina (THH) — que actúan como inhibidores reversibles de la monoaminooxidasa (iMAO), en cuanto a las hojas de Psychotria viridis son fuente del principal componente psicoactivo, la N,N-dimetiltriptamina (DMT). El estudio evaluó el perfil toxicológico mediante análisis in silico utilizando la herramienta Protox 3.0, y mediante un ensayo in vivo de toxicidad aguda en ratones machos BALB/c, siguiendo las directrices de la OECD 423, con adaptación. Las predicciones computacionales indicaron que el DMT presenta una dosis letal media (DL50 ) estimada en 225 mg/kg y capacidad para atravesar la barrera hematoencefálica, lo que corrobora sus efectos psicoactivos. Las β-carbolinas presentaron DL50 aproximadas de 500 mg/kg para HMN, 550 mg/kg para HRL y 355 mg/kg para THH, clasificándose en la categoría 4 de toxicidad. Además, se observó una alta probabilidad de inmunotoxicidad y un potencial de interacción con enzimas hepáticas de la familia CYP450. En el ensayo toxicológico in vivo, no se registraron muertes asociadas a la dosis de 64,7 mg/kg (1,94 mg del extracto bruto acuoso). Tampoco se identificaron diferencias significativas en el consumo de agua, alimento ni en el aumento de peso corporal entre los grupos experimentales. En la evaluación macroscópica de los órganos, se observó una diferencia estadísticamente significativa únicamente en el bazo, donde el grupo tratado presentó esplenomegalia. El hígado mostró un aumento de tamaño, aunque sin significancia estadística, y los demás órganos permanecieron sin alteraciones aparentes. Los resultados obtenidos revelaron seguridad en el uso de la bebida ayahuasca. No obstante, refuerzan la necesidad de realizar estudios complementarios, incluyendo análisis histopatológicos, bioquímicos y estudios a largo plazo, para ampliar el conocimiento sobre la seguridad de la ayahuasca, así como su potencial terapéutico en el tratamiento de enfermedades refractarias.
Abstract
Although numerous studies have already been conducted to understand the action of ayahuasca in complex organisms, studies carried out using well-established experimental models remain scarce. There is a clear need to rigorously evaluate the safety of this substance, particularly in light of its growing interest in clinical and therapeutic contexts. In this sense, the present work presents a toxicological analysis of the ancestral beverage ayahuasca, of indigenous origin, composed mainly of the vine Banisteriopsis caapi and the leaves of Psychotria viridis. From this beverage, the vine Banisteriopsis caapi contains the β-carboline alkaloids — harmine (HMN), harmaline (HRL), and tetrahydroharmine (THH) — which act as reversible inhibitors of monoamine oxidase (MAOIs), while the leaves of Psychotria viridis are the source of the principal psychoactive component, N,N-dimethyltryptamine (DMT). The toxicological profile was evaluated through in silico analyses using the Protox 3.0 tool, as well as through an in vivo acute toxicity assay in male BALB/c mice, following OECD guideline 423 with modification. Computational predictions indicated that DMT presents an estimated median lethal dose (LD50 ) of 225 mg/kg and the ability to cross the blood–brain barrier, corroborating its psychoactive effects. The β-carbolines exhibited approximate LD50 values of 500 mg/kg for HMN, 550 mg/kg for HRL, and 355 mg/kg for THH, classifying them within toxicity category 4. In addition, a high probability of immunotoxicity and potential interaction with hepatic enzymes of the CYP450 family was observed. In the in vivo toxicological assay, no deaths were recorded at the dose of 64.7 mg/kg (1.94 mg of the aqueous crude extract). No significant differences were observed in water or food intake, nor in body weight gain among the experimental groups. Macroscopic evaluation of the organs revealed a statistically significant difference only in the spleen, where the treated group exhibited splenomegaly. The liver showed an increase in size, although without statistical significance, and the remaining organs showed no apparent alterations. The results obtained indicate safety in the use of the ayahuasca beverage. Nevertheless, they reinforce the need for further studies, including histopathological and biochemical analyses, as well as long-term studies, to expand knowledge regarding the safety of ayahuasca and its therapeutic potential in the treatment of refractory diseases.
Descrição
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto Latino-Americano de Ciências da Vida e da Natureza da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Biotecnologia.
Palavras-chave
Ayahuasca, Bebidas - rituais, Toxicologia analítica, Doenças - tratamento
Citação
VEGA RODRIGUEZ, Cinttia. Avaliação toxicológica não-clínica in silico e in vivo da bebida ayahuasca. 2025. 56 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Biotecnologia) – Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Foz do Iguaçu, 2026.