Santos, Letícia de Oliveira2026-09-162026-09-162026-09-16https://dspace.unila.edu.br/handle/123456789/10008Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em História.Esta dissertação investiga a construção dos discursos médicos sobre o corpo feminino no Brasil do século XIX, analisando como a medicina participou da produção de saberes destinados a definir, classificar e controlar as mulheres em um contexto marcado pela consolidação da medicina social, pela urbanização e pelas transformações políticas do Império. A pesquisa tem como objetivo compreender de que maneira conceitos como natureza feminina, prostituição, nevroses, histeria, degeneração e loucura foram mobilizados pelos médicos para interpretar comportamentos femininos considerados desviantes, bem como legitimar formas específicas de intervenção sobre os corpos e a sexualidade das mulheres. Fundamentada na História das Ideias e dialogando com a História dos Conceitos de Reinhart Koselleck, a investigação analisa teses médicas produzidas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, especialmente as obras de Lassance Cunha, Francisco Ferraz de Macedo e João Álvares de Azevedo Macedo Júnior, além das Cartas Sobre a Loucura publicadas por Francisco Ribeiro Delfino Montezuma na imprensa cearense. A pesquisa também mobiliza contribuições da História das Sensibilidades e dos estudos sobre gênero para compreender a relação entre medicina, moralidade e poder. Os resultados demonstram que a medicina oitocentista não se limitou à descrição de doenças ou ao tratamento dos indivíduos, mas atuou ativamente na construção de representações sobre a feminilidade, transformando comportamentos, emoções e práticas sexuais em objetos de observação científica. Verificou-se que a prostituição passou por um importante processo de transformação conceitual, deixando de ser interpretada exclusivamente como pecado ou desvio moral para converter-se em questão sanitária, urbana e populacional. Observou-se ainda que o fortalecimento dos discursos sobre degeneração, sensibilidade nervosa e loucura contribuiu para legitimar mecanismos de vigilância, medicalização e enclausuramento direcionados especialmente às mulheres pobres. No contexto da seca de 1877-1879 e da criação do Asilo de Alienados São Vicente de Paula, esses saberes forneceram instrumentos para a identificação e o silenciamento de mulheres consideradas inconvenientes à ordem social. Conclui-se que os discursos médicos analisados participaram ativamente da construção de formas modernas de controle social, articulando ciência, moralidade e poder na administração dos corpos femininos. Resumen Esta disertación investiga la construcción de los discursos médicos sobre el cuerpo femenino en el Brasil del siglo XIX, analizando cómo la medicina participó en la producción de saberes destinados a definir, clasificar y controlar a las mujeres en un contexto marcado por la consolidación de la medicina social, la urbanización y las transformaciones políticas del Imperio. La investigación tiene como objetivo comprender de qué manera conceptos como naturaleza femenina, prostitución, neurosis, histeria, degeneración y locura fueron movilizados por los médicos para interpretar comportamientos femeninos considerados desviados, así como legitimar formas específicas de intervención sobre los cuerpos y la sexualidad de las mujeres. Fundamentada en la Historia de las Ideas y en diálogo con la Historia de los Conceptos de Reinhart Koselleck, la investigación analiza tesis médicas producidas en la Facultad de Medicina de Río de Janeiro, especialmente las obras de Lassance Cunha, Francisco Ferraz de Macedo y João Álvares de Azevedo Macedo Júnior, además de las Cartas sobre la Locura publicadas por Francisco Ribeiro Delfino Montezuma en la prensa cearense. El estudio también incorpora aportes de la Historia de las Sensibilidades y de los estudios de género para comprender la relación entre medicina, moralidad y poder. Los resultados demuestran que la medicina decimonónica no se limitó a la descripción de enfermedades o al tratamiento de los individuos, sino que actuó activamente en la construcción de representaciones sobre la feminidad, transformando comportamientos, emociones y prácticas sexuales en objetos de observación científica. Se constató que la prostitución atravesó un importante proceso de transformación conceptual, dejando de ser interpretada exclusivamente como pecado o desviación moral para convertirse en una cuestión sanitaria, urbana y poblacional. Asimismo, se observó que el fortalecimiento de los discursos sobre degeneración, sensibilidad nerviosa y locura contribuyó a legitimar mecanismos de vigilancia, medicalización y reclusión dirigidos especialmente a las mujeres pobres. En el contexto de la sequía de 1877-1879 y de la creación del Asilo de Alienados São Vicente de Paula, estos saberes proporcionaron instrumentos para la identificación y el silenciamiento de mujeres consideradas inconvenientes para el orden social. Se concluye que los discursos médicos analizados participaron activamente en la construcción de formas modernas de control social, articulando ciencia, moralidad y poder en la administración de los cuerpos femeninos.viopenAccessHistória das ideiasmedicina socialprostituiçãoloucuraA revolta da natureza feminina: discursos médicos, prostituição e loucura no caso de fortaleza no século XIX